Cremilde Maria de La Rosa Raposo P. Colaço Barreiros, Lisboa 2002

 

 

 

 

 

 

«Lisboa é uma cidade doceira, como Paris é uma cidade intelectual.

Paris cria a ideia e Lisboa o pastel.

Daí a grande quantidade de doenças de estômago e de maus dentes.»

 

In Uma campanha Alegre II, pág. 101

Eça de Queiroz

 

 

 

A capital portuguesa espantou-se e encantou-se com as pedras preciosas e as especiarias: pimenta, cravo-da-índia, noz-moscada, canela, açúcar...

Lisboa, cidade, vida e coração deste Reino – segundo as palavras de Fernão Lopes, via deslumbrada a chegada das escunas que vinham do Oriente e que aportavam ao cais da Ribeira.

Gil Vicente (1465?-1537?) descreve Lisboa que se enche de pessoas de diferentes credos e raças que enchem mercados e praças onde se vendem todos os géneros de produtos. Dramaturgo, caricatura habilmente as gentes que pupulam pela capital agrupando-as segundo as suas características. É o primeiro autor português que tem a audácia de apresentar vários tipos sociais onde a moral não abunda: maridos gananciosos que partem para o Oriente seduzidos pelo ouro e especiarias, mulheres que ficam em Lisboa sem cônjuge e sem dinheiro e se consolam com os seus galanteadores e especialmente com aqueles que lhes dão iguarias. O «Auto da Índia» é um dos exemplos:

 

Moça: Ando dizendo ente mi

que agora vai em dous anos

que eu fui lavar os panos

além do chão d’Alcami [1]

e logo partiu a Armada

domingo de madrugada.

Não pode muito tardar

nova se há-de tornar

noss’amo pera a pousada.

(...)

 

Ama:   Andei na maora nela

a  amassar e biscoitar[2]

pera o demo o levar

à sua negra canela,

e agora dizem que não.

Agasta-se-m’o coração,

Que quero sair de mim.

(...)

 

Ama:   Vós quereis cá cear?

Eu não tenho que vos dar.

 

Lemos:   Vá esta moça à Ribeira

                     (...)

 

Moça: Azevias trazerei?

 

Lemos:   Dá o Demo às azevias[3] :

          não compres já m’enfastias.

 

Moça:     O que quiserdes, comprarei.

 

Lemos:   Traze ua quarta de cereijas

          E um cetil de bribigões

                  

                     In Auto da Índia, Gil Vicente – 1509

 

Não será de espantar que Lemos, o escudeiro arruinado, não queira ouvir falar de peixe porque a capital do Reino não tinha só os odores agradáveis das especiarias. O cheiro de peixe frito em óleos requentados espalhava-se ao longo da Ribeira das Naus onde marinheiros e vagabundos esperavam a sorte de embarque. Em tendas feitas de madeira semi-podre e de restos de panos de velas seguras por cordames de juta era servido dia e noite peixe frito. O cheiro emanado era tão pestilento que à locanda mais famosa o povo alcunhou de “Mal Cozinhado”. Luís Vaz de Camões faz referência a este local onde se vendia somente peixe frito e vinho de zurrapa.

Camões (? – 15870) não ficou nem indiferente aos cheiros do “Mal Cozinhado” nem aos odores das especiarias vindas do Oriente. Nos «Lusíadas» pela boca do mouro Monçaide dá-nos a seguinte descrição:

 

Sabei, que estais na Índia, onde se estende

Diverso povo, rico e prosperado

De ouro luzente e fina pedraria,

Cheiro suave, ardente especiaria.

In Lusíadas, Canto VII, 31

 

E quando o espírito está assim preparado entra francamente na enumeração das especiarias, ao descrever a partida de Calcutá de Vasco da Gama:

 

Leva pimenta ardente, que comprara;

A seca flor de Banda não ficou;

A noz e o negro cravo que faz clara

A nova ilha Maluco, coa canela

Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

                In Lusíadas, Canto IX, 14

 

 

Envolvamo-nos no cheiro da canela e nos seus mitos. Na antiga Grécia chamavam-lhe cinamomo que significa pau cheiroso, tornando-se quase mítica devido às suas propriedades curativas, aromáticas e às inúmeras dificuldades para a obter, justificando-se assim o seu elevado preço.

 

Segundo Heródoto, os árabes que a comercializaram contavam histórias fantásticas: as caneleiras crescem num lago pouco profundo e são ferozmente protegidas por animais alados que lançam gritos terríveis a quem se quiser aproximar; é imprescindível passar despercebido e disfarçarmo-nos com peles de bois, burros e de outros animais de carga deixando apenas os olhos a descoberto. Existe outra técnica muito comum que pode ser utilizada: recolher os ninhos desmantelados das grandes aves de rapina, dado que são confeccionados e entrelaçados com paus de canela. A grande dificuldade consiste em que estes ninhos estão em rochas escarpadas e inacessíveis ao ser humano; só com muita argúcia, sangue frio e técnica se consegue obter: esquartejam-se vacas, burros e outros animais de carga que morrem pelo caminho, levam-se para as regiões das rochas e depositam-se o mais perto possível dos ninhos; as aves de rapina descem imediatamente e levam os grandes pedaços de carne para os seus ninhos, que não podendo suportar o peso, se desmoronam e caiem por terra.

Garcia da Orta ao tomar a palavra no «Colóquio Décimo Quinto» não hesita em denunciar as  circunstâncias que presidiam à organização do circuito comercial de canela, que assegurava um preço elevado aos comerciantes árabes. Por essa razão fingiram – os intermediários – mil fábulas. Procurou também proceder ao inventário de todas as canelas, a verdadeira e as falsas, chegando à conclusão que os portugueses só enviam para Lisboa e Europa  a de mais alta qualidade, a canela do Ceilão.

Garcia de Orta descreve a caneleira como uma árvore do tamanho da oliveira possuindo “duas cortezas” como os sobreiros e o leitor teria de visualizar à sua maneira dado que ainda não havia desenhos ou gravuras fidedignas.

A euforia tomou conta da «Capital do Reino»; Sá de Miranda, homem austero e lúcido assusta-se com os acontecimentos da urbe e alerta:

 

«Não me temo de Castela

Donde guerra inda não soa,

Mas temo-me de Lisboa,

Que ao cheiro desta canela

O Reino nos despovoa.»

 

Mas Lisboa anda de nariz no ar, os odores quentes das especiarias espalham-se pela cidade, sendo a Casa da Índia o local de armazenamento das especiarias denominada por Damião de Góis como o Empório dos Aromas.

As confeitarias crescem por toda a cidade. Damião de Góis (1502-1570) já fala dos confeitos ou confeitados e no açúcar na seguinte passagem:

«Se alevantando as mesas trouxeram muitos confeitos, amêndoas confeitas... açúcar candil[4]...»

In Crónica de D. Manuel, Damião de Góis, IV cap.10 p.266 (1566-1567)

 

 

Será de interesse explicar o termo «se alevantando as mesas»; as mesas eram postas pela simples razão de que não havia casa de jantar e comia-se ao gosto do momento, aqui ou ali. A mesa era armada (posta) sobre as pernas em Xis. Antes de se alevantar a mesa, tirava-se a toalha, já bem suja, pois os comensais ali limpavam as mãos[5].

O que vinha depois, as frutas e os doces eram comidos directamente sobre a mesa. Daí a sobremesa.

A regra de etiqueta de “não meter na comida mais que a ponta dos dedos” existia para todas as classes sociais, dado que só no séc. XVIII foi introduzido o uso do garfo e da faca em Portugal tal como o conhecemos hoje.

Fernão Mendes Pinto (1510/14? – 1583) na sua «Peregrinação» conta-nos como um Nautoquim (príncipe ou governador) ficou grato aos portugueses; queria-lhes inclusivamente ofertar uma tença por comerem com a ponta dos dedos. A princesinha triste, a tão amada filha de Nautoquim riu-se pela primeira vez na vida quando viu os portugueses comerem com as mãos.

As refeições dos portugueses passaram a ser um factor de divertimento da Corte: tapetes sumptuosos e coxins riquíssimos eram colocados no meio do salão de Nautoquim para que os portugueses pudessem confortavelmente comer com as mãos e a princesinha triste e restante corte se rissem até às lágrimas.

Os primeiros meses foram de encantamento para estes marinheiros portugueses que tinham sofrido fome e frio quando a nau naufragou nos mares da China e foram miraculosamente recolhidos pelos súbditos do Nautoquim. Contudo, passados alguns meses não aguentaram mais a situação de comerem a toda a hora para alegrar a princesinha e fugiram dessas paragens.

 

Voltemos ao confeito, aos doces e à canela: com a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498, a canela veio a representar um papel importante no grande comércio de especiarias que a partir do séc. XVI teve por centro Lisboa.

A canela passou a ter em português as seguintes designações: canela da Índia, canela fina e canela da Rainha. A atribuição do nome desta última dever-se-à ao facto da Infanta D. Maria (neta do Rei D. Manuel), mulher culta ligada à literatura e à culinária, ter utilizado esta especiaria em receitas que compilou no seu famoso livro de cozinha, nos finais do séc. XV/início do séc. XVI. “O livro de cozinha da Infanta D. Maria” foi manuscrito para fazer parte do bragal de noiva aquando o seu casamento com o duque de Parma e Piacenza. Foi o primeiro livro sobre este tema e muitas das receitas de culinária portuguesa renascentista foram assim preservadas e divulgadas nas cortes europeias da época por esta Princesa.

Esta obra ficou durante centenas de anos arrumada na Biblioteca Nacional de Nápoles. Dela revelou José Leite de Vanconcellos um trecho nos seus “Textos Arcaicos” (1903) e só muito posteriormente editado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Na mesma época e de autor anónimo surge “O Livro de Cozinha”[6], dividido em seis partes: “caderno dos manjares de carne”, “caderno dos manjares de ovos”, “caderno dos manjares de leite” e “caderno das cousas de conservas”. No primeiro caderno são mencionadas vinte e cinco receitas de confecção de carnes e os restantes revelam-nos doces de ovos, de leite, compotas e doces de frutas. Para além do emprego abundante de especiarias (então com todo o fascínio da novidade) e da aplicação frequente de elementos doces aos pratos de carne são patentes o exclusivismo dos pratos de carne, a doçaria copiosa e o pouco apreço dado aos legumes. Características que haveriam de perdurar de algum modo na cozinha portuguesa até hoje. Este livro foi recentemente reeditado.

As confeitarias multiplicam-se pela parte baixa da cidade, os confeiteiros guardam ciosamente os seus segredos, prosperam e organizam-se através do arruamento dos mesteres. É-lhes concedido regimento no Senado de Lisboa em 1572. Elegem sua padroeira Nossa Senhora da Oliveira que passará a cabeça de bandeira.

Nascerá a Rua dos Confeiteiros onde antes do terramoto de 1755 já havia sete confeitarias[7].

No séc. XVIII passará a favor dos Bacalhoeiros fugindo as confeitarias para pontos mais arejados onde não fosse necessário às senhoras taparem os narizes com Josézinhos de esticar[8].

Apreciadora de sobremesas, frutas cristalizadas, doces e compotas, Lisboa dedicou muito dos seus caminhos a árvores de fruto: Amendoeiras, Amoreiras, Ameixoeiras, Cerejais, Cerejeiras, Figueiras, Laranjal, Laranjeiras, Limoeiro, Nogueira, Parreiras, Parreirinhas.

Lisboa quinhentista atrai os invejosos e gulosos. As louças esmaltadas importadas da China faziam o assombro da Europa que não as possuíam assim como os festins artísticos.

Venturino, enviado a Portugal pelo Papa Pio V em 1571, era de opinião que as mesas de Lisboa não podiam competir com a boa ordem, a abundância e o escolhido das de Madrid, porque os portugueses «não têm o hábito de banquetear-se» e referindo-se às Festas da Corte diz que se conhecia a boa vontade com que os nossos davam tudo, ostentando abastança de peças de ouro, prata e porcelanas servidas por muitos criados, mas quanto às iguarias estas eram mais grosseiras do que delicadas.

Possivelmente esta má imagem perdurou entre os espanhóis e que por esse motivo Felipe II em 1619 recomendasse ao Município de Lisboa que «houvesse neve e sorvete» enquanto o soberano permanecesse em Lisboa.

Esta foi a grande inovação gastronómica de Lisboa de seiscentos: a neve e o sorvete que era vendido na capital e que Tirso de Molina lhe dedica os seguintes versos:

 

« Nieve de Sierra de Estrella

que por las calles à gritos

puestas sobre las cabezas

la vendem (...)»

 

Não só a neve e o sorvete eram uma atracção de Lisboa; as touradas eram uma outra fonte de diversão tanto real como popular. A Corte assistia às touradas das janelas do Paço da Ribeira e os populares nos palanques. Como era habitual comer durante os festejos taurinos e nos espectáculos teatrais do séc. XVII, a Câmara de Lisboa oferecia gentilmente doces a certo número de pessoas. Assim se explica que nas contas para as festas em honra do Rei encontramos a verba de 11$400 de “doces aos cidadãos no palanque” e anota que os doces para as mesas tinham sido fornecidos pelo Presidente da Câmara[9].

As ruas de Lisboa são uma verdadeira atracção, os “perigos” espreitam as mulheres.

No seu didactismo moralista e muito marialva D. Francisco Manuel de Mello (1608-1666) refere-se aos apetites doceiros femininos: «Mel e açúcar? São cousas de botica» tal como alerta os homens para o ideal de mulher:

 

«arrecadada, guardosa

de comadres, quanto menos

nem migalha de gulosa

lave esfregue, amasse e cosa.»

                In Obras Métricas, Francisco Manuel de Mello, 1660

 

 

Este tipo de lições teve muitos seguidores e a prova está na admiração que o conde de Oxenstierne tem por quase não ver mulheres nas ruas lisboetas.

Duarte Nunes de Leão diz que «as damas, quando saem, é só para ir à igreja e nunca deixam a sua casa para ir a qualquer outro sítio».

O grande olissiponense Júlio de Castilho corrobora com Duarte Nunes de Leão sobre a maneira como as damas da época passavam o tempo: «Quando os seus lavores caseiros lhes dispensavam, ia-se em visitas pelos conventos, onde as suas amigas e parentas, já freiras professoras, faziam os doces finíssimos, os bordados miríficos, eram tanto como a conversação afectuosa e assucarada das celas o melhor desenfado e uma das atracções dos mosteiros femininos». In Lisboa Antiga, pág. 175.

Um poeta mais destemido popularizou os seguintes versos:

 

«  Nos torneios e nas liças

dos belos tempos passados

a poetas alambicados

davam doces as noviças:

trouxas d’ovos bem roliças

suspiros, beijos de amor»

 

Os doces fabricados nos conventos eram mais requintados e os seus ingredientes eram pouco acessíveis às bolsas lisboetas. Os doces conventuais são confeccionados à base de açúcar, leite, ovos, amêndoa e canela. É interessante notar que os seus nomes parecem que pretendem fazer uma ligação entre a Terra e as doçuras celestiais: pudim do Céu, Toucinho do Céu, Manjar Celeste, Bolos Celestes, Creme do Convento, Papos d’anjo ou Suspiros de Freira. Conventos famosos especializados em doçarias: Sant’Ana, Salvador, Anunciada, Encarnação, Esperança, Madre de Deus, Claras, Calvário, Sacramento e Anjos deram azo a que Frei Jerónimo Baía, segundo o gosto seiscentista os utiliza como trocadilhos no seu poema “Ao minino Deus em metáforas de doce”:

 

— Quem quer fruta doce?

— Mostre cá! Que é isso?

    É doce coberto,

É manjar divino.

— Vejamos o doce,

E depois que o virmos,

Compraremos todo,

Se for todo rico.

    Venha ao portal logo;

    Verá que no minto,

Pois de várias sortes

É doce infinito.

    Descubra, minha alma.

Mas ah? que diviso?

Envolto em mantilhas,

Um Infante lindo!

    Pois de que se admira,

Quando este Menino

É doce coberto, é manjar divino?

    Diga o Como é doce,

Que Ignoro o prodígio.

    Não sabe o mistério?

Ora vá ouvindo:

Muito antes de Santa Ana,

Teve este doce princípio,

Porque já do Salvador

Se davam muitos indício.

Mas na Anunciada dizem

Que houve mais expresso aviso,

E logo na Encarnação

Se entrou por modo divino.

Esteve pois na Esperança

Muitos tempos escondido,

Saío da Madre de Deos,

Depois às Claras foi visto.

Fazem dele estimação.

As freiras com tal capricho,

Que apuram para este doce

Todos os cinco sentidos.

Afirmam que no Calvário

Terá seu termo finito,

Sendo que no Sacramento

Há-de ter novo artifício.

Que seja doce este Infante,

A razão o está pedindo,

Porque é certo que é morgado.

Sendo unigénito Filho!

Exposto ao rigor do tempo,

Quando tirita nuzinho,

Um caramelo parece

Pelo branco e pelo frio.

Tal doce é, que, porque farte

Ao pecador mais faminto,

Será de pão com espécies

Substancial doce divino.

É manjar tão soberano,

Regalo tão peregrino,

Que os espíritos levanta,

Tornando aos mortos vivos.

Tão delicioso bocado

Será de gosto infinito,

Manjar real, verdadeiro,

Manjar branco parecido!

Que é manjar dos Anjos, dizem

Talentos mui fidedignos,

Por ser pão-de-ló, eu aos Anjos

Foi em figura oferecido.

 

              Jerónimo Baía, I, pág. 362

 

 

Lisboa seiscentista não é só metáforas doces e vida despreocupada, grossas nuvens começam a surgir, os doces amargam na boca de uma parte significativa da população: os Judeus.

Estamos em Janeiro, no ano da Graça de 1531, Lisboa fede a cadáveres putrefactos; mais de dois mil habitantes ficaram debaixo dos escombros provocados pelo terramoto. O povo tem medo da Peste, ela persegue Lisboa, o cheiro paira no ar, os monarcas saem de Lisboa e vão “a ares”. As muralhas da cidade e especialmente a última a ter sido mandada construir por D. Fernando, concentram os maus cheiros que se concentram malevolamente no centro da cidade.

Culpados? Há muitos... especialmente os Judeus. É necessário destruí-los para que a cidade se liberte das pestes. O povo mal-lavado e mal-cheiroso persegue os Judeus.

23 de Maio de 1536 -  D. João III dá o veredicto hoje. Mas um problema aflige o nosso rei, ainda não há Sede para a recepção de denúncias nem para as sessões de Tribunal... e o povo espera impacientemente pelo milagre – da limpeza de Lisboa – milagre esse que será purificado pelo fogo, pela carne fumegante dos Judeus.

20 de Setembro de 1540 – Hoje o nosso querido Rei D. João III, Rainha e toda a Corte rejubilam de prazer. Encontram-se magestosos e nobres, como é próprio da sua condição, nas janelas do Paço dos Estaús, circundando-os, mas no piso inferior, o povo regozijante. Os lisboetas estão suspensos do espectáculo que falta pouco para começar. Lisboa que inaugurou em 06 de Junho de 1502 a tradição dos autos – se bem que esse fosse à porta fechada – e na alcova da Rainha... vai hoje ser palco de um espectáculo muito mais grandioso, empolgante, fervoroso e quente, ou melhor: escaldante! O primeiro Auto de Fé.

Figuras importantes da Literatura Portuguesa como Damião de Góis e António José da Silva “O Judeu” são atirados para as fogueiras enquanto os inquisidores, apaníguados e demais funcionários do aparelho do Ofício “Santo” não davam mostras de falta de apetite antes e durante os “espectáculos”.

«As mesas cheias de deliciosos aromas dos acepipes completam o espectáculo popular. Os cheiros cruzam-se nos ares carne assada dos faisões e javardos e a dos caldeirões com azeite fervente onde bem benzidos e confortados os hereges vão sendo assados (...)[10] ».

Todos comiam copiosamente estimulados pelos odores de carne humana queimada. O luxo de iguarias e doces com que se banqueteavam eram tão grandes que o próprio rei começou a temer que pouco ou nada restasse dos bens confiscados aos Judeus.

Transcrevo da “Despesa dos gastos do Auto-de-Fé  que se celebrou em 18 de Novembro de 1646 em Lisboa” parte correspondente a doces e frutas:

-  « De abóbora coberta, marmelada em talhadas, bocados e caixas, escorcioneyra ralada[11]; perada, cidrada, maçapãis[12] brancos e de ovos reais, pêras e melão, marquesinhas[13], cidrada ralada; confeitos vários, ovos reais de alforge, caroucos[14] de Alcorsa[15] recheados, manjar real em caixas que se deram quinze dias antes do auto na mesa secreta e se mandaram aos senhores inquisidores, deputados, promotor e notários, como é costume e se deram aos Padres da Companhia que assistiram com os relaxados e se deram a Francisco de Almeida para ter no auto 64$820.

-  De três pratos de manjar-branco[16], 1$540

-  De três pratos de ovos reais, 2$250

-  De dois pratos de manjar real, 1$500

-  De uma canastra de fruta: pêras de conde, margamotas, maçãs de capela e rainha, que se deram ao porteiro para o dito jantar e se gastou no secreto na ceia de sábado, 940$000.»

 

O ditado popular tem razão... o que é doce nunca amargou.

 

 

 

Nota de Sobremesa:

 

 

Boleira L=22,3x Alt.=14,5 cm de Alcobaça, tal como atesta no fundo da peça. Está também devidamente assinada (RB) e numerada (868). Peça para bolos médios ou para bolas acabados de tirar do forno e colocar na mesa de chá. Os orífícios na base garantem o seu arrefecimento mais rápido e a conservação integral do sabor do bolo ou da bola; normalmente coloca-se por cima um pano branco cru, sobre a pega a fim de garantir a concentração total do sabor e da humidade que lhe é inerente, o qual só era retirado quando o bolo ou a bola atingia a temperatura fria que é a mais saudável. Apresenta dois desgastes no dourado num lado da pega provavelmente por ser o lado por onde normalmente era pegada a boleira.

 

 

 

 

Bibliografia:

 

Amorim, José Roby “Elucidário de conhecimentos quase inúteis” – Edições Salamandra 1985

 

Camões, Luiz Vaz de “Os Lusíadas”

 

Castelo-Branco, Fernando “Lisboa seiscentista” – Livros Horizonte 1990

 

Castilho, Júlio “Lisboa Antiga” (vol. I a X) – S. Industriais da C.M.L. 1937 – 2ª edição

Conde de Ficalho “Flora d’Os Lusíadas” – Hiena Editora – 1994

 

Ferreira, Maria Ema Tarracha “Antologia literária comentada” – época clássica Séc. XVI – partes I e II – Editorial Aster – Lisboa; “Textos Literários Séculos XVII e XVIII – Editorial Aster - Lisboa

 

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Editorial Enciclopédia Limitada – Lisboa, Rio de Janeiro

 

Goes, Damião “Crónica de D. Manoel”; “Descrição de Lisboa” – Ribeira das Naus

 

Lavanha, João Baptista “viagens da Católica Real Magestade d’El Rei FelipeII N.S. ao Reyno de Portugal” – editado em Madrid

 

Margarido, Alfredo “As surpresas de flora no tempo dos Descobrimentos” – Editor Elo 1998

 

Melo, D. Francisco Manoel de “Obras Métricas” de 1660; “Carta de Guia de Casados” – Clássicos Sá da Costa

 

Miranda, Francisco Sá de “Sonetos” – Clássicos Sá da Costa

 

Pinto, Fernão Mendes de “Peregrinação” – Afrontamento – Lisboa

 

Quitério, José – Histórias e curiosidades gastronómicas” – Assírio & Alvim 1992

 

Saraiva, António José “A Inquisição e os cristãos-novos”

 

Sequeira, Gustavo de Mattos

 

Sotto Maior, Áppio “O Poço da cidade – crónicas lisboetas” Vol. I e Vol. II – Editorial Notícias, Lisboa 1993

 

Vasconcellos, José Leite de “Etnografia Portuguesa vol. VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa Da Moeda, 1982

 

Vicente, Gil “Auto da Índia” – clássicos Sá da Costa

 

Bibliografia de Imagens:

 

Imagem 1 – Pimenta de Rabo

Imagem 2 – Capa de Obras Completas de Gil Vicente

Imagem 3 – Zincogravura de Luiz de Camões, Editora Sá da Costa; colecção particular

Imagem 4 – Primeira representação da canela, fornecida por Cristóvão da Costa

Imagem 5 – Damião de Goês

Imagem 6 – Capa da obra de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação

Imagem 7 – Canela, Colóquios de Garcia de Orta

Imagem 8 – Lisboa no séc. XVI

Imagem 9 – Painel de azulejo ainda hoje existente em Lisboa, representando um abade

Imagem 10 – Menino Jesus de Praga

Imagem 11 – Bolo de Santo António, Lisboa

Imagem 12 - Menino Jesus, Igreja do Manigoto

Imagem 12 – Boleira de Alcobaça, colecção particular

Imagem de fundo: Figura de Lisboa, segundo Francisco de Holanda. Projecto de fonte monumental.

 

 

 

 

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[1] Alcami – Largo da antiga Lisboa na freguesia de S. Cristovão

[2] Fazer biscouto ou biscoito- Pão de forma arredondado e chato para mais facilmente ser armazenado nas naus. Este pão como não leva fermento dura aproximadamente um ano e era o principal sustento da marinhagem.

[3] Azevias – peixe muito comum na época. Não se trata de doces com este mesmo nome.

[4] Açúcar candil – açúcar refinado

[5] Embora também se limpassem ao pêlo dos cães que solicitavam um osso sobrante.

[6] Que muito possivelmente será uma compilação de receitas familiares.

[7] Segundo rezam os arquivos da Irmandade de Nossa Senhora da Oliveira

[8] Cabeções de golas com elasticidade suficiente para envolverem o rosto.

[9] In Elementos, II, 48.

[10] In A Inquisição e os Judeus Novos, António José Saraiva.

[11] Escorcioneyra ou escorcioneira – planta espontânea em Trás-os-Montes e Beira. Servia-se em  pratinhos de bordas altas concebidos especialmente para doces (covilhetes) às visitas.

[12] Maçapãis ou massapão – bolo de amêndoa com farinha e ovos.

[13] Marquesinha – uva branca do Minho ou qualidade de pêra.

[14] Caroucos – mistura de frutas em compotas ou mesmo salada de frutas com caroço.

[15] Alcorsa, alcorça ou alcorce – massa de farinha e açúcar com que se fazem enfeites para cobrir bolos ou doces. Palavra derivada do árabe.

[16] manjar-branco – iguaria ou doce feito de leite e de farinha maizena.